Como solucionar problemas – por um inventor de mais de 200 patentes

untitledRobert Fischell inventou o marcapasso recarregável e a bomba de insulina implantável – Sem mencionar que ainda ajudou a criar o precursor do GPS. Com 87 anos, Robert compartilha uma breve olhada em seu processo criativo.

É possível que você tenha algum membro da família ou conhecido, que esteja vivo por causa de um stent coronário flexível. Ou ainda, um amigo que administra sua diabetes com uma bomba de insulina implantada. Ou, algo ainda mais provável, que talvez hoje tenha usado um aplicativo em seu smartphone para obter direções, plotadas com a ajuda do GPS.

Tradução: Júlia Linck Moroni, Médica Veterinária

Se algum dos fatos anteriores for verdade, você pode agradecer à Robert Fischell, intrépido inventor e vencedor do Prêmio TED 2005. Engenheiro de longa data, Fischell ajudou a criar um ponto chave para o GPS antes de voltar sua atenção para dispositivos médicos na década de 1970. Hoje, ele possui mais de 200 patentes nos EUA, desde o desfibrilador cardíaco implantável até o SpringTMS, um dispositivo recentemente aprovado pelo FDA para o tratamento de enxaquecas. Este ano, aos 87 anos, Fischell recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação de Barack Obama. Mas ele não planeja diminuir sua velocidade. Na verdade, ele ainda está trabalhando em sua ideia mais ambiciosa. Abaixo, ele compartilha suas melhores dicas sobre como resolver um problema.

Leve seu know-how à novos lugares. Uma noite, há cerca de 40 anos, ele estava lendo uma revista comercial quando se deparou com um anúncio de uma bateria de marcapasso que se gabava por ter durado dois anos. “Eu olhei para aquilo e disse: “Espere um minuto, isso está no peito de alguém! Ele dura dois anos e eles estão orgulhosos disso?”. Na época, as pessoas com marcapasso operavam a cada dois anos para substituir suas baterias. “Eu pensei: “O que precisamos é uma pequena célula de níquel-cádmio em uma bobina de fio dentro do marcapasso que é recarregável por indução magnética através da pele. Isso seria necessário para a vida do paciente.” A partir disso, Fischell encomendou à um grupo de engenheiros no seu Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, a criação de um protótipo. Não era apenas recarregável mas também era menor do que os modelos existentes. Trabalhando com um cirurgião no Hospital da Universidade, Fischell construiu uma empresa para produzir este novo dispositivo e, dentro de um ano, instalaram o marcapasso recarregável em 1.700 pacientes. E as baterias persistiram.

Escute aos outros e deixe sua mente viajar.

Após o marcapasso recarregável, Fischell começou a trabalhar em um desfibrilador cardíaco implantável. Ele percebeu que, como um satélite, este dispositivo poderia ser programado por ondas de rádio – e ele estava na sala de operações quando o primeiro foi implantado em um paciente em 1980. A partir desse momento, Fischell estava empenhado em inventar dispositivos médicos e, encontrava mais inspiração falando com as pessoas sobre suas dificuldades médicas. “Quando alguém me relatava ou relata algum problema, minha mente começa a exergar soluções”, diz ele. Já em 2005, como Fischell compartilhou, ele não tinha conhecimento de como as enxaquecas eram debilitantes até conversar com pessoas que as experimentaram várias vezes por semana. E ele se perguntou: “A corrente elétrica poderia interromper uma enxaqueca?” A ideia levou ao desenvolvimento do SpringTMS, um estimulador magnético transcraniano portátil que pode ser posicionado em contato à cabeça, no início de uma enxaqueca. O dispositivo foi aprovado pela FDA em 2013. “É muito gratificante ver como está ajudando as pessoas”, diz Fischell. “Há algo muito pessoal, sobre melhorar a vida dos seres humanos”. O estudo clínico mais recente analisou o que acontece quando o dispositivo é usado diariamente, em vez de somente quando necessário. “Com dois pulsos todas as manhãs e à noite, o número de dores de cabeça e de enxaqueca que você possui, podem diminuir significativamente”, diz ele.

Quando algo funciona, veja como pode ser aplicado em outras circunstâncias também.

Fischell adora spin-offs. O desfibrilador implantável funcionou monitorando o sinal elétrico do coração e fornecendo uma explosão de correção de estimulo elétrico sempre que o ritmo mudava. Fischell suspeitava que o mesmo princípio pudesse tratar a epilepsia. A partir disso,desenvolveu o chamado Estimulador neural responsivo (RNS), um pequeno dispositivo implantado diretamente no crânio para monitorar os sinais elétricos do cérebro. Quando ele detecta um sinal anormal, envia eletricidade para evitar uma convulsão. O sistema RNS foi aprovado pela FDA em 2013, após ensaios clínicos que mostraram que os pacientes experimentaram uma redução de 38% no número de convulsões por mês. No entanto, esse não é o fim da história. Fischell agora quer ver como os cientistas podem usar essa tecnologia para tratar outros distúrbios cerebrais, como a depressão ou até o transtorno obsessivo-compulsivo.

Não tenha medo de pensar grande – realmente grande. A última ideia de Fischell soa como ficção científica. “Estou trabalhando em um método para remover toda a dor crônica humana, sem drogas ou efeitos colaterais, em um tratamento de apenas dez minutos”, diz ele. “Eu sei que isso parece uma loucura, mas eu acredito que pode funcionar”. Ele criou um dispositivo para encaixar na parte inferior das costas, joelho ou pescoço, ou qualquer outro lugar que você possua dor crônica, o qual irá enviar pulsos magnéticos direcionados. Fishell afirma que: “Na lei de Faraday, os pulsos se transformam em uma corrente elétrica no corpo”. “Por isso, podemos acreditar que esses pulsos podem destruir ou confundir o sinal elétrico dos neurônios da dor ao cérebro”. Os ensaios clínicos começaram na Escola de Medicina da Universidade de Maryland. Se o dispositivo funcionar como o esperado, poderia ajudar cerca de 100 milhões de pessoas nos Estados Unidos que sofrem de dor crônica e, potencialmente, reduzir o vício em analgésicos. “Quando você tem um dispositivo médico que está criando um pulso magnético nas costas, por exemplo, a única coisa tratada  são as costas e a região a qual foi aplicado o dispositivo. Porém, quando você toma um medicamento  para dor nas costas, este irá passar por todo o seu corpo, existindo o risco de que a substância ingerida atue em células diferentes das necessárias”, diz ele. “Estou ansioso para anunciarmos nosso dispositivo para redução de dor crônica local, na televisão. Enquanto todos esperam a lista de efeitos colaterais adversos, não teremos nenhum”.

Pense sobre aqueles que estão atrás de você. Fischell trabalha com três parceiros notáveis: seus filhos, um fisiologista, um cardiologista e um MBA. A empresa familiar não era exatamente um plano, mas também não foi um acidente, diz Fischell. “Em relação aos filhos, é que eles vêem que você ama o que você está fazendo e assim, seguem o espírito.” Agora ele está expandindo essa ideia, tendo doado dinheiro para o Clark Hall na Universidade de Maryland. Localizado no Departamento de Bioengenharia de Fischell e no Instituto Robert E. Fischell de Dispositivos Biomédicos, o prédio recebeu o nome de um amigo que morreu de insuficiência cardíaca congestiva em 2015. O objetivo do edifício? Inspirar estudantes a criar um produto que poderia ter salvado a vida de seu amigo. “Eu acredito que podemos fazer um dispositivo que evite mortes por insuficiência cardíaca congestiva”, diz ele. “Estou procurando inspirar estudantes de graduação e pós-graduação para novas ideias”.

Inove para as pessoas, não para ter lucro. “Muitas pessoas pensam que o objetivo de uma patente é tornar o inventor rico, mas não é por isso que os EUA criaram o sistema de patentes”, diz ele. “Eu vejo que, o propósito do sistema de patentes, é revelar segredos comerciais para que o comércio e a tecnologia avancem”. É por isso que ele está entusiasmado com o fato de que inventores do futuro poderão revisar,“remixar” e até superar o seu trabalho,salvando mais vidas como resultado. Mas o verdadeiro segredo de Fischell para o sucesso? “Com 60 anos de dedicação exclusiva ao trabalho, qualquer um pode alcançá-lo”.

Fonte: www.ideas.ted.com, Kate Torgovnick May

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